Um País que corre atrás

  • 31-08-2021

 

Há dias em que é melhor começar pelas definições básicas. Planear: definir antecipadamente um conjunto de ações ou intenções, projetar. Antecipar: adiantar, fazer acontecer antes do tempo.

Tanto planear como antecipar são conceitos simples. A verdade é que em Portugal parecem fardos demasiado pesados. Temos muita dificuldade em ver para lá da espuma dos dias, do imediato, daquilo que nos acontece em cada instante. Somos um povo que corre atrás, ótimos a desenrascar porque não sabemos evitar e chegar antes do tempo. Acrescentamos a isto uma tendência igualmente incómoda: Não aprendemos com os erros. Mesmo quando a realidade nos tenta ensinar, continuamos com a mesma dificuldade em planear e antecipar.

O melhor exemplo disto foi a gestão da pandemia. Até à chegada de um militar, andámos sempre a acudir ao presente, incapazes de projetar o futuro. O País percebeu, finalmente e entre outras coisas, as condições em que trabalham os enfermeiros e a necessidade de reforçar os quadros de pessoal dos hospitais. A questão é: o que mudou? Nada. Basta olhar para o que se está a passar no Algarve.

 

Desmintam-me se estiver enganada. É ou não é verdade que o verão dura, todos os anos, de Junho a Setembro? É ou não é verdade que o Algarve, todos os verões, vê crescer a sua população sazonal? É ou não é verdade que os hospitais do Algarve, no verão, são muito mais solicitados? Sim. Tudo isto é verdade, mas mesmo assim parece que ninguém foi capaz de antecipar e planear o reforço dos enfermeiros no Centro Hospitalar Universitário do Algarve. Dir-me-ão que o problema não é de hoje. Certo. Mais uma razão para, depois de tudo o que vivemos durante a pandemia, termos aprendido alguma coisa. De facto, o problema não é de hoje, mas há uma grande diferença em relação ao passado: os enfermeiros perderam o medo de denunciar.

Podemos arranjar as justificações que quisermos, mas nada pode justificar a presença de três enfermeiros para 90 doentes, nem no Algarve, nem em qualquer hospital deste País. É neste ponto que a falta de capacidade de antecipar e planear se transforma numa enorme irresponsabilidade. E aqui entra o terceiro conceito com o qual Portugal também parece ter dificuldades em lidar: Responsabilizar. Temos, de uma vez por todas, de associar a liberdade e a autonomia à responsabilidade.

Até Setembro vão entrar no mercado de trabalho cerca de três mil novos enfermeiros. Chegou a hora da verdade. A Alemanha está a oferecer 3.800 euros aos novos Enfermeiros Portugueses. Quando cá pedimos 1.600 euros brutos para o início de carreira, caiu o carmo e a trindade, chamaram-nos tudo. Ou reabrimos esta negociação ou deixamos que rumem ao estrangeiro. Se fizermos a opção errada, o tempo não voltará para trás e as consequências já todos percebemos quais serão. Aí sim, não valerá a pena procurar porque não teremos enfermeiros para cuidar dos nossos.

 

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